domingo, 8 de abril de 2018

À volta da casta Fernão Pires (2ª parte) : o almoço

...continuando:

3.O almoço
O repasto decorreu na Taberna Ó Balcão, no centro de Santarém, com o Rodrigo Castelo, chefe e proprietário deste espaço, a harmonizar as suas iguarias com os vinhos servidos, todos com base na casta Fernão Pires, a rainha da festa.ça
Desfilaram:
.Companhia das Lezírias Tyto Alba 2016 (terroir Charneca) - com um pouco de Arinto; presença de citrinos, acidez e algum vegetal, volume e final de boca médios. Nota 15,5.
Acompanhou tábuas de queijos e enchidos e, ainda, 3 surpreendentes e deliciosos petiscos (coscorão do rio até ao mar, croquete de toiro bravo e bucha de capado).
.João Barbosa Ninfa Maria Gomes 2016 (terroir Bairro; não entendo a lógica deste produtor, ao colocar no rótulo o nome bairradino da Fernão Pires) - aromático, fresco e mineral, acidez equilibrada, notas vegetais, algum volume e final de boca curto. Nota 16.
Servido com achegã (peixe demasiado neutro) e uma fabulosa açorda de ovas de barbo, o vinho passou por baixo.
.Casal Branco Falcoaria Fernão Pires Vinhas Velhas 2016 (terroir Charneca) - vencedor do último Concurso de Vinhos do Tejo; aroma complexo, presença de citrinos e fruta de caroço, acidez no ponto, notas amanteigadas, estruturado e final de boca persistente. Nota 17,5.
Aguentou-se com acém de toiro maturado, puré de inhame e legumes grelhados.
.Qtª da Alorna Abafado 5 Anos - fresco, simples e agradável, cumpriu a sua função. Nota 16.
.Qtª da Lagoalva Abafado 1964 - muito mais complexo, gordo, alguma acidez e boa estrutura. Uma raridade. Nota 17,5
Estes vinhos finais foram servidos com algumas sobremesas da casa.
De louvar:
.a criatividade do chefe e o facto de ter vindo às mesas
.os copos Riedel para todos os vinhos (que também foram utilizados na prova didáctica, o que, por lapso, não referi na 1ª parte da crónica)
De criticar:
.os vinhos chegaram sempre atrasados à mesa, já os pratos lá estavam, quando deveria ser ao contrário. Um aspecto a corrigir.

4.O senhor Fernão Pires
Achei curioso recordar o que o saudoso José António Salvador (JAS) escreveu no seu livro "16 Castas Portuguesas", edição do Jornal de Notícias em 2005. Para cada uma das 16 castas seleccionadas, o autor nomeou um enólogo representativo e um vinho da sua autoria, tendo escolhido para a casta Fernão Pires o actual presidente do IVV, Frederico Falcão (FF) de seu nome, na altura enólogo na Companhia das Lezírias. O vinho seleccionado foi o Companhia das Lezírias Fernão Pires 2003, considerado pelo JAS uma obra-prima.
Entre outras perguntas e respostas, destaco esta:
"JAS - Considera a casta Fernão Pires de nível qualitativo semelhante à Alvarinho, Encruzado ou Arinto?
FF - Sem duvida. Considero a Fernão Pires uma grande casta e uma das que tem mais potencial entre as castas brancas nacionais. Estou convencido que o Ribatejo já aprendeu a trabalhar esta casta devidamente e surgem já no mercado grandes vinhos de Fernão Pires. Respeite-se a casta e a sua acidez natural e vamos confirmar que é uma casta de grande potencial vinícola.".

5.Conclusões
A CVR Tejo está de parabéns ao organizar, com o apoio da Joana Pratas, este didáctico evento à volta da casta Fernão Pires.
A prova das amostras pode ter sido cansativa, mas foi largamente compensada com a prova de alguns vinhos mais antigos (e foi pena que não tivessem sido mais), que comprovaram que a Fernão Pires, se bem tratada, pode proporciar-nos brancos apaixonantes, como foi o caso do 5ª de Mahler 2000 e do Falcoaria 1994.

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