quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Almoço com Vinhos Fortificados (25ª sessão) : 2 Madeiras do séc XIX de arrasar

Esta última sessão foi da responsabilidade do casal Marieta/José Rosa que ofereceu ao chamado Grupo dos Madeiras, reforçado com o seu filho João Rosa, vindo expressamente de Londres para o efeito, um almoço na Casa da Dízima, com vinhos da sua garrafeira.
Começámos com o branco Bouchard Pére & Fils Meursault Premier Cru Genevrières 2007 Domaine de Beaune, Côte d' Or Magnum (uf!, que nome tão comprido...) - nariz muito atractivo, bela acidez, fruta de caroço e citrinos, sedoso na boca, volume e final de boca consistentes. Nota 18+.
Acompanhou queijos (Azeitão, QtªMadre de Água, Fornos de Algodres e Castelo Branco), bacalhau fumado, presunto Joselito grande reserva e paio da presa).
Seguiu-se:
.Soalheiro Alvarinho Reserva 2010 Magnum - aroma intenso e complexo, fruta madura, belíssima acidez, notas amanteigadas, bom volume e final de boca longo. Muito complexo e um belo exemplar desta reputada marca. Nota 18+.
Maridou com uma série de tapas (crocante de farinheira de porco preto, biqueirão em vinagrete, terrina de fois gras, lombo de cachaço e lascas de bacalhau fumados e, ainda, diversos queijos) e uma excelente entrada de risotto de vieiras frescas em manteiga de lavagante.
.Soalheiro Alvarinho Reserva 2013 - mais fresco e mineral que o anterior, presença de citrinos, alguma acidez e volume de boca, persistência acentuada. Nota 18.
Também acompanhou o risotto.
.Henriques & Henriques Sercial Solera 1898 - frutos secos, vinagrinho, notas de iodo, caril e brandy, taninos ainda muito presentes, acentuado volume e final de boca muito longo. Complexo e sofisticado. A Madeira no seu melhor: tanta idade e tanta juventude. Inacreditável! Nota 19.
Este Sercial foi bebido com todo o respeito e pôs o palato a zeros.
.Qtª Vale Meão 2010 Magnum - aroma intenso e muito fino, acidez equilibrada, notas balsâmicas, taninos impressionantes, volume e final de boca notáveis. Ainda está para durar, mais uns tantos anos. Nota 18,5.
.Qtª Vale Meão 2009 - ainda com muita fruta e alguma acidez, menos complexo que o anterior, taninos mais discretos, bom volume e final de boca. Nota 18.
Estes 2 tintos fizeram um bom casamento com uma excelente bochecha de vitela, cozinhada a baixa temperatura, com chalotas, castanhas e ervilhas tortas.
.JPL Boal 1880 (Madeira do avô do Francisco Albuquerque) - aroma intenso, vinagrinho acentuado, notas de iodo e brandy, taninos intensos, volume acentuado e final de boca extenso. Todo ele de grande complexidade. Nota 19.
Este fortificado harmonizou muito bem com uns saborosíssimos brownies de batata doce e de alfarroba com gelado.
.Artur Barros e Sousa Bual Velha Reserva 1958 - nariz afirmativo, frutos secos, notas de vinagrinho e brandy, taninos suaves, volume e final de boca assinaláveis. Menos complexo que os seus irmãos mais velhos. Nota 18.
Boa comida, bons copos e temperaturas, serviço de 5 estrelas, a cargo da equipa conduzida pelo Pedro Batista. Só foi pena que o nosso amigo Adelino, mentor deste grupo, não pudesse estar presente, por motivos de saúde.
Mais uma grande sessão de convívio, comeres e beberes. Obrigado Marieta e José Rosa!

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Encontro com o Vinho e Sabores (EVS) 2016

Estive presente em mais um EVS, o 17º, o acontecimento vínico do ano, sem qualquer dúvida. Este último estava organizado com mais de 450 produtores, 226 stands de vinho, 28 de sabores e 10 de acessórios. Contou, ainda, com 13 provas especiais e 12 sessões, entre tertúlias e demonstrações culinárias. É obra!
Participei apenas na 2ª feira, o dia destinado aos profissionais e o mais calmo, se comparado com o fim de semana. É a grande oportunidade de matar saudades e trocar 2 dedos de conversa com amigos, antigos clientes, produtores, enólogos e outros agentes do vinho. Quanto a vinhos, tive a oportunidade de provar 70 referências, 1 branco (o Teixuga 2013, por curiosidade), 59 tintos e 10 fortificados, uma ínfima amostragem do que se encontrava por lá, mas que chegou para me anestesiar o nariz e neutralisar o palato.
Quanto aos tintos, o que mais me impressionou foi o Kompassus Private Selection 2011, logo seguido de Qtª de Bageiras Garrafeira 2011, Vale de Ancho Reserva 2011, Esporão Private Selection 2012, Calda Bordaleza 2008, Diga? 2008, Qtª da Gricha 2012, António Saramago Superior 2010, Villa Oliveira Touriga Nacional 2011 e o 2221 Terroir Cantanhede 2011. Também me ficaram na memória Qtª dos Murças Reserva 2011, Aguia Moura Garrafeira 2011, Buçaco Reservado 2013, Qtª da Alameda Reserva Especial 2012, Campolargo 2011, Luis Pato Vinhas Velhas 2012, Vinha dos Amores Touriga Nacional 2011 e Qtª de Lemos Touriga Nacional 2010. De destacar a presença da excepcional colheita de 2011, com 9 vinhos eleitos num total de 18.
Quanto aos fortificados, o meu grande destaque vai para o Burmester 40 Anos e Vallado 30 Anos, seguidos do surpreendente e, para mim, totalmente desconhecido Blackett 30 Anos, Calém 40 Anos e Vasques Carvalho 40 Anos. Nota alta, ainda, para Messias 40 Anos, Blackett 20 Anos e Qtª do Noval Colheita 2003.
Acabei por almoçar no local, stand Abre Latas que se intitula pomposamente "eating house & catering". Em má hora o fiz, pois comprei 2 doses já preparadas, uma de bacalhau com grão e outra de polvo com feijão preto, só que embora saborosas, tanto o bacalhau como o polvo, tinham metido dispensa. Só à lupa! Para compensar bebi um copo de um desconhecido, surpreendente e gastronómico branco que dá pelo nome de Kelman Enruzado 2013 (Dão).
O EVS 2016 contou, ainda com a habitual Escolha da Imprensa, de cujo painel de prova cega, por simpático convite da Revista de Vinhos, fiz parte.
E, para o ano, há mais!

sábado, 3 de dezembro de 2016

Livros para o Natal

1.Para enófilos, militantes ou não
Para este universo, aconselho vivamente o livro do João Paulo Martins (JPM), "Histórias com Vinho & outros condimentos" (Ed. Oficina do Livro), com base em crónicas publicadas na Revista de Vinhos e em diversas outras publicações, algumas delas acrescidas de comentários do autor actuais.
Esta publicação divide-se em 3 partes:
1ª - Ao sabor da História (bem regada)
Aqui o JPM faz jus à sua formação base (História), informando o leitor que "A literatura portuguesa sobre vinho tem alguns nomes incontornáveis. Um deles é Rui Fernandes, autor que viveu em Lamego no séc. XVI e nos legou uma descrição pormenorizada sobre o Douro e o vinho". Sabiam disto? Eu, não. Também ficamos a saber que Cincinato da Costa, um estudioso da nossa agricultura e autor da monumental obra "O Portugal Vinícola", publicda em 1900, referiu em 1906, numa das revistas "A Vinha Portuguesa", que a vinha do Poceirão seria a maior do mundo (!), extendendo-se desde o Pinhal Novo até à estação do Poceirão. Também não sabia.
2ª - Tirar o vinho do sério
A veia humorística do JPM, está bem expressa nesta parte do livro, contando-nos umas tantas histórias hilariantes, algumas reais, outras imaginadas. Numa delas, "Os vinhos da Presidência portuguesa", engendra no Jornal à Mesa, em Março de 1992, uma situação surrealista à volta da concepção do Centro Cultural de Belém, brincando com o facto de o arquitecto Gregotti não ter previsto uma garrafeira no CCB. Comentou agora que afinal sempre abriu a tal garrafeira, Coisas do Arco Vinho, cujos proprietários (o Juca e eu) usaram o seu texto para promoverem a loja. De facto, a propósito deste artigo do JPM, escrevi no discurso do 1º ano das CAV, parcialmente publicado na brochura comemorativa do nosso 10º aniversário que a ficção se teria transformado em realidade.
3ª - A batalha da mesa
Num dos capítulos desta última parte, refere o autor que, a propósito dos restaurantes, "Normalmente pouco se fala dos vinhos e ainda menos sobre o seu serviço. E por serviço devemos ter em conta coisa muito simples como os copos, a temperatura do vinho e a sua eventual decantação, no caso de ter sido necessária". Assino por baixo e considero-me um enochato, quando o serviço de vinhos na restauração não tem o mínimo de qualidade.
Noutro capítulo, o JPM volta à carga, referindo que "(...) as cartas de vinho são uma miséria, e o serviço uma desgraça. Ressalvo aqui uma excepção que me vem sempre à memória e nunca é demais referir: o Manjar do Marquês, em Pombal (...)". Também assino por baixo e já o escrevi mais de uma vez em crónicas aqui publicadas.
2.Para principiantes
."O Vinho na Ponta da Língua", de Maria João de Almeida (Ed. Saída de Emergência)
."Especialista de Vinhos em 24 Horas", de Jancis Robinson (Ed. Casa das Letras)
."Branco ou Tinto?", de Joana Maçanita (Ed. Manuscrito)
."Guia Popular de Vinhos 2017", de Aníbal Coutinho (Ed. Presença)
A propósito, alguém deu pela saída do Guia do JPM?

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Bagos Chiado : revisão da matéria

No espaço de 2 meses, visitei este restaurante 5 vezes (a solo, com a companheira, com o Grupo dos 3, com um casal amigo e no jantar Qtª do Vallado), tendo-o referido aqui nas crónicas "Curtas (LXXX) : Bagos Chiado (...)", "Grupo dos 3 : brancos em alta no Bagos Chiado" e "Jantar Qtª do Vallado (...)", publicadas em 27/9/2016, 13/10/2016 e 29/11/2016, respectivamente e que não esgotaram o que há para dizer sobre este espaço.
A lista de vinhos tem alguma originalidade, fugindo da "chapa 5" da maioria dos restaurantes, a preços sensatos. Inventariei 4 espumantes (1 a copo), 26 brancos (3), 34 tintos (3), 2 rosés (1), 3 Portos, 2 Madeiras, 2 Moscatéis e 1 Licoroso, podendo ser bebidos a copo todos os fortificados. A única crítica a fazer é que os vinhos da Região dos Vinhos Verdes foram colocados separadamente dos restantes brancos, o que não faz sentido. Nas cervejas, nota-se a ausência das artesanais que agora estão na moda e pelas melhores razões: é que depois de ter provado uma destas, acho intragáveis as industriais.
Quanto a vinhos bebidos neste espaço, para além dos referidos nas crónicas indicadas registei:
.Vinha de Reis 2014 branco - com base nas castas Encruzado, Bical e Malvasia; bom equilíbrio entre a acidez, os citrinos e a estrutura. Gastronómico. Nota 17,5.
.Vicentino 2014 tinto - aroma discreto, fruta vermelha, razoável acidez, volume e final médios. Nota 17.
Quanto a comeres na lista, curta, constam 6 entradas, 5 peixes, 4 carnes e 5 sobremesas que incluem arroz. Entre outros pratos, registei e comi com muito prazer:
.caldo de legumes com cogumelos e massa de arroz
.costoleta de borrego com salada de pera e farinha de arroz
.carolino de carne de porco com lingueirão e coentros (divinal!)
De registar que de 3ª feira a sábado, ao almoço, se pode comer por
.12 € (entrada ou sobremesa e prato) ou
.15 € (entrada, prato e sobremesa)
Finalmente, o Bagos Chiado já foi objecto de críticas muito favoráveis em:
.Expresso (Fortunato da Câmara) - "O Bagos Chiado junta a nossa cozinha de arrozes a um dos melhores cozinheiros nacionais"
.Time Out (Alfredo Lacerda) - atribuiu 4 estrelas no máximo de 5.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Jantar Qtª do Vallado : nota alta para a colheita de 2008

Mais um evento da Garrafeira Néctar das Avenidas, desta vez no restaurante do Henrique Mouro, o Bagos Chiado. O Francisco Ferreira desceu até à capital e apresentou, muito pedagogicamente, os seus vinhos mais recentes e outros já feitos, para se perceber como eles podem evoluir no bom caminho. Muito simpaticamente, o Francisco Ferreira referiu-se , em termos elogiosos, aos antigos donos e animadores das Coisas do Arco do Vinho, presentes no jantar. Obrigado, Francisco!
Quanto aos vinhos, com enologia dos dois Franciscos (Olazabal e Ferreira) desfilaram:
.Qtª do Vallado Reserva 2015 - com base nas castas Arinto, Gouveio, Rabigato e Viosinho, estagiou 7 meses em barricas de carvalho francês; presença de citrinos, fresco e mineral, acidez q.b., notas amanteigadas, madeira bem casada, algum volume e bom final de boca. Valeu 94 pontos no Parker e 18 valores na Revista de Vinhos. Gostaria de o voltar a provar daqui a mais uns anos. Nota 17,5+.
Acompanhou arroz de pato num croquete.
.Vallado Superior 2014 - com base nas castas Touriga Nacional (60 %) e Touriga Franca (40 %) da Qtª do Orgal, em produção biológica, estagiou 16 meses em barricas de carvalho francês; aroma intenso, notas florais, acidez equilibrada, taninos de veludo, encorpado e final de boca médio. Ainda com pouca complexidade, precisa de mais 5/6 anos. Nota 17.
.Qtª do Vallado 2008 (em garrafa de 5 litros) - aroma complexo, ainda com alguma fruta, notas especiadas, acidez equilibrada, taninos presentes, algum volume e bom final de boca. Equilibrado e elegante, evoluiu muito bem. Nota 17,5.
Estes 2 vinhos foram servidos com um pampo no forno, com o segundo tinto a harmonizar melhor que o primeiro.
.Qtª do Vallado Sousão 2014 - fruta preta, alguma acidez e taninos, volume médio e final persistente. Está muito novo e unidireccional, faltando-lhe complexidade, mas não sei se a idade a trará. Esta casta não faz a minha felicidade. Nota 16,5+.
Maridou bem com leitão assado, bagos e batata doce.
.Qtª do Vallado Reserva 2014 - arma complexo, muito frutado, acidez equlibrada, taninos domesticados, algum volume e bom final de boca. Ainda muito jóvem, vai melhorar daqui por mais 5/6 anos. Nota 17,5+.
.Qtª do Vallado Reserva 2008 - alguma fruta, notas florais e terciárias, acidez no ponto, especiado, algum chocolate e tabaco, taninos afirmativos mas civilizados, volume e final de boca assinaláveis. Muito elegante e harmonioso. O Vallado no seu melhor. Nota 18,5.
Estes 2 tintos acompanharam lebre com espuma de feijoca e cenoura.
.Qtª do Vallado 20 Anos - frutos secos, acidez equilibrada, algum iodo, taninos presentes, complexidde, algum volume e final muito longo. Nota 18.
Casou bem com um folhado de marmelada e arroz doce.
Foi, ainda, servido um surpreendente 10 Anos.
Quanto ao serviço, nada fácil com os participantes dispersos em 2 salas, correu com bom ritmo, apesar da equipa reduzida, onde brilhou a Ana, uma profissional de 5 estrelas.

sábado, 26 de novembro de 2016

Crónicas em atraso, mais uma vez

Não consigo acompanhar o ritmo frenético das actividades vínicas em que tenho participado, faltando "cronicar" ainda:
.Jantar Qtª do Vallado
.Encontro Vinhos e Sabores 2016 e Painel da Imprensa
.Almoço do grupo dos Madeiras
.Vertical de vinhos Meruge
.Vinhos em família
.Apresentação do Periquita António Zambujo
.Jantar Qtª das Bageiras
Uf! Só espero que o mês de Dezembro seja mais calmo.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Grupo dos 3 (54ª sessão) : um Madeira de excepção

Mais uma sessão às cegas deste núcleo duríssimo, tendo sido o Juca a escolher o restaurante e a trazer vinhos da sua garrafeira (1 branco, 2 tintos e 1 fortificado). A prova decorreu no Bel' Empada (Av. João XXI, 24 mesmo ao lado do Napoleão) já aqui referido em "Belmiro Jesus e suas empadas", crónica publicada em 26/4/2016.
Aqui come-se muito bem, mas a sala, além de ser de reduzidas dimensões é excessivamente ruidosa, prejudicando um pouco a concentração necessária à degustação de vinhos de qualidade. Mais, neste espaço não se pode pagar com cartões, sejam Visa ou simples MB, estratégia do proprietário que não se entende de todo.
Os vinhos em prova foram:
.Chocapalha Reserva 2009 - com base nas castas Chardonnay e Viosinho, estagiou 6 meses em barricas novas de carvalho francês; ainda muito fresco e mineral, bela acidez a prolongar-lhe a vida, presença de citrinos, alguma gordura, volume e final de boca. Nota 17,5.
Acompanhou bem empadinhas de vitela, queijo fresco e paté de figados de aves, mas colidiu com os ovos mexidos.
.Charme 2007 - aberto na cor, nariz contido, aromas e sabores terciários, discreto e elegante, algum volume e final de boca. Nota 16,5+.
Maridou bem com um pampo grelhado e grelos.
.Crochet 2011 - com base nas castas Touriga Franca e Touriga Nacional; ainda com muita fruta, acidez equilibrada, notas de tabaco  e chocolate preto, volume e final de boca assinaláveis. Nota 18.
Fez um casamento feliz com uma empada de vitela e batata frita.
.Artur Barros e Sousa Moscatel Velho 1963 - frutos secos, notas de iodo e caril, acidez q.b., taninos envolventes, volume assinalável e final muito longo. Embora não se note muito a presença da casta, é um excelente e sedutor Madeira. Nota 18,5+.
Acompanhou um belíssimo marmelo assado.
Mais uma grande sessão. Obrigado, Juca!